Edição 94

Novembro de 2012

ESTUDOS URBANOS

Inscrição e circulação: novas visibilidades e configurações do espaço público em São Paulo

São Paulo é uma cidade com grafites surpreendentes e extraordinária profusão de pixações, imensas manifestações públicas e intensa produção artística. Estriada pela rápida movimentação das motos por entre as filas de carros em avenidas congestionadas, assim como pela prática do skate e do parkour, do rap e do break, a própria cidade é local e tema de uma variedade de atividades públicas que se apropriam do espaço urbano e o produzem de maneiras inusitadas. São essas intervenções em áreas públicas que vêm transformando e rearticulando as profundas desigualdades sociais que sempre marcaram esses espaços.

Resumo

Uma série de intervenções produzidas por homens jovens estão transformando os espaços públicos de São Paulo e rearticulando as profundas desigualdades sociais que sempre marcaram a cidade. O artigo analisa dois modos de intervenção: a produção de inscrições e o deslocamento pelo espaço urbano. A “produção de inscrições” refere‑se à proliferação de grafites e pixações, ambos em estilos típicos de São Paulo. Já o deslocamento espacial alude às novas práticas de circulação pela cidade, como o motociclismo, o skate e o parkour. Essas intervenções garantem uma nova visibilidade a jovens vindos das periferias, desafiam noções prévias sobre o funcionamento dos espaços públicos, e revelam novas contradições da esfera pública democrática.

Meu propósito aqui é analisar algumas das transformações e tensões geradas em São Paulo por dois modos específicos e sobrepostos de intervenção: a produção de inscrições e o deslocamento pelo espaço urbano. A “produção de inscrições” refere‑se à proliferação de grafites e pixações, ambos em estilos típicos de São Paulo. Já o deslocamento espacial alude não só às novas práticas de circulação pela cidade, que incluem o uso de motos e skates, assim como o parkour, mas é muito mais amplo, uma vez que tais deslocamentos são cruciais para a sociabilidade e o lazer de grupos juvenis, e também constituem aspecto relevante da grafitagem e da pixação. Os praticantes de ambas as modalidades de intervenção são quase exclusivamente jovens do sexo masculino, que, à medida que recriam o espaço público, acabam ainda por configurar hierarquias de gênero. Tais práticas, sem dúvida, não esgotam as atuais possibilidades de constituição do espaço público urbano, e seus adeptos representam uma minoria entre os moradores da metrópole. No entanto, hoje elas estão incorporadas à rotina da cidade, afetam a vida dos cidadãos para além do grupo estrito de seus adeptos e ocasionam mudanças paradoxais no ambiente urbano. Essas intervenções pressupõem a desigualdade e, portanto, a naturalizam. Elas privilegiam a agressividade e a transgressão como modos de articulação, ao mesmo tempo que recorrem à linguagem dos direitos e das liberdades, e ainda revelam um prazer genuíno na livre circulação pela cidade. Colocam em questão certo modus vivendi, mas não evocam alternativas reconhecidas, como as articuladas em termos de cidadania e igualdade. Por tudo isso, essas práticas requerem uma nova concepção tanto do espaço público democrático, como do papel dos grupos subalternos na produção da cidade.

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Mauro Restiffe

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