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Resenha de Gênero e Trabalho no Brasil e na França: perspectivas interseccionais

Veridiana Parahyba Campos
Resenha

Resenha por Veridiana Parahyba Campos

Gênero e Trabalho no Brasil e na França: perspectivas interseccionais / organização Alice Rangel Paiva Abreu, Helena Hirata, Maria Rosa Lombardi; tradução Carol de Paula. – 1. Ed. – São Paulo: Boitempo, 2016

 

O livro Gênero e Trabalho no Brasil e na França: perspectivas interseccionais (Boitempo, 2016) reafirma e coroa a legitimidade da discussão que encabeça o título do livro. E o faz tanto no que diz respeito às Ciências Sociais, como, de maneira mais específica, em relação aos Estudos Feministas. O livro é resultado do colóquio internacional Trabalho, cuidado e políticas sociais: Brasil-França em debate, ocorrido nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro em Agosto de 2014. Sendo uma obra coletiva organizada por pesquisadoras mais que experientes na área (Alice Rangel Abreu, Helena Hirata e Maria Rosa Lombardi), reúne um time de autoras e autores de primeira linha, estudiosos de várias imbricações da relação entre as mulheres e o trabalho. Relação esta historicamente contínua (ainda que por vezes se ventile o contrário) e tensa por sua imanente contradição, haja vista seu poder de opressão e/ou libertação na vida das mulheres.

A largura do espectro de assuntos trabalhados e a profundidade dos vários conteúdos impressionam os leitores e dão indicativos tanto do que está sendo contemporaneamente trabalhado em termos teóricos, como sobre o que as pesquisas empíricas andam analisando. Além disso, por abranger pesquisas brasileiras e francesas que enfocam os problemas da desigualdade de gênero no mundo do trabalho, o livro cobre as produções científicas de dois importantes países. Com realidades que, a princípio, poderiam ser bastante diferentes, percebemos como, às vezes, elas se revelam bastante irmãs (como no caso do hiato salarial entre mulheres e homens apresentado por Silvera e por Lavinas et al.). A percepção dessas aproximações e distanciamentos enriquece muito o campo de estudos de gênero nos dois países. Conceitos fulcrais contemporâneos como interseccionalidade (que já aparece no subtítulo), consubstancialidade e cuidado/care aparecem recorrentes vezes ao longo dos textos. Isso acaba dando um fio condutor ao material todo, garantindo unidade e coerência. O que em muito se deve, inclusive, à feliz escolha das organizadoras de colocarem como primeiro artigo “O cuidado e a imbricação das relações sociais”, de Danièle Kergoat, permitindo situar-nos nas bases teóricas da discussão geral que aparecerá a seguir numa série de trabalhos. Por tudo isso, trata-se de uma obra que nos atualiza muito bem do momento presente dessa área de estudos.

O livro está dividido em seis partes: “Entrecruzar as desigualdades”, “Medir as desigualdades”, “Trabalho e uso do tempo”, “O gênero nas carreiras artísticas e científicas”, “Cuidado, dinâmicas familiares e profissionais” e “Cuidado, políticas sociais e cidadania”. Essa seleção do material por aproximação temática permite que o leitor acesse sinalizações do que está contido em cada eixo. Esses pequenos clusters funcionam como mergulhos mais profundos nos eixos em questão, dando-nos um panorama eficiente.

O livro tem, além de um propósito acadêmico-científico, um propósito social/político pela equidade e pela democracia, mais um ponto que doa coesão à obra. Afinal, como afirma Tatau Godinho no prefácio: “O mundo do trabalho não é só um campo de conhecimento, mas também caminho fundamental para mudar as desigualdades entre mulheres e homens.” (p.10). Godinho, que foi secretária de Políticas do Trabalho e Autonomia Econômica das Mulheres da SPM-PR (até Maio de 2016), reafirma que o material apresentado no livro nos leva a pensar como a divisão sexual do trabalho continua interferindo na alocação, remuneração e ascensão das mulheres. Seja nos trabalhos sobre as engenheiras europeias empregadas na produção tecnológica de ponta de aviões (Lapeyre), seja na discussão sobre o hiato salarial entre mulheres e homens no Brasil (Lavinas) ou no texto que avalia como até mesmo as políticas públicas associam as mulheres à ideia de cuidado (Sorj), tudo converge para demonstrar a intensidade da relação entre gênero e trabalho e como ela resulta numa divisão sexual do trabalho que tende a ser sempre negativa para as mulheres. Entretanto, há algumas notícias boas: as mulheres começam movimentos de ocupação de áreas profissionais prestigiadas, como a música erudita (Segnini) ou a engenharia (Lombardi & Gonzalez).

Os artigos demonstram que as profissões ou áreas de trabalho fortemente feminizadas contêm alguns traços comuns negativos que se repetem: normalmente estão ligadas à ideologia do cuidado, tendem a ser precarizadas, têm como corpo formador as mulheres mais negras e/ou i/migrantes e são ocupações desvalorizadas social e financeiramente. Em seu artigo sobre o trabalho doméstico no Brasil, Ávila afirma que em nosso país, de um total de 6,6 milhões de trabalhadores dessa especialidade, 92,6% são mulheres (das quais 61% são negras). Além disso, relembra que a regularização da jornada de trabalho dessa categoria só foi institucionalmente alcançada em 2013 (!), num contexto bastante polêmico. Reforçando a importância de conceitos como interseccionalidade e consubstancialidade no entendimento dessa realidade tão desigual, Ávila afirma:

“O sentido de servidão no trabalho doméstico, ligado a uma concepção sobre as mulheres como sujeitos predispostos a uma disponibilidade permanente para servir aos outros, é informado ainda por um outro sentido de servidão, que diz respeito à sua associação com a escravidão da população negra. A análise crítica dessas heranças contribui para a desnaturalização das relações de servidão no emprego doméstico.”  (p. 139)

 

Diante da ausência de regulamentação formal, áreas de trabalho fortemente feminizadas e domésticas que vêm historicamente empregando as mulheres – como faxineiras, babás, diaristas, cuidadoras de idosos etc. – mantiveram as relações de trabalho beirando à servidão. O ponto é central e foi repassado por vários autores do livro (Falquet, Guimarães e Hirata, apenas para citar alguns). Isso formou um enorme contingente de trabalhadoras invisíveis, não contabilizadas em nenhuma pesquisa que se utilize apenas de indicadores institucionais. Maruani e Meron, que tentaram contabilizar o número de mulheres que trabalharam na França do século XX, por exemplo, complexificam a questão: “Quando tomamos em conta as mulheres, o que se qualifica como atividade ou como trabalho ou como emprego?”. Elas próprias concluem: “Os números são políticos” (p. 60) e envolvem ideologias e representações sociais.

Apesar de tudo, Gênero e Trabalho no Brasil e na França mostra também que há algumas mudanças positivas em curso: por exemplo o acesso das mulheres a algumas áreas profissionais prestigiadas tradicionalmente masculinas como aquelas ligadas à tecnologia, por exemplo  — ainda que isso venha ocorrendo de maneira lenta e num percentual bastante baixo (Abreu et Al.). De acordo com as autoras, as mulheres também estão mais inseridas na educação superior. Em 2008, 51% dos doutores brasileiros era de mulheres. Já há também, pelo menos na França (Bessin), uma demanda política pela articulação do “problema do cuidado” e Estado, orientada para a desobrigação das mulheres das funções de cuidadoras domésticas de crianças, de idosos, de pessoas com necessidades especiais etc.

Da leitura do livro se conclui que há uma grande efetividade nas ações coletivas, politizadas e politizantes voltadas para as mulheres. Ao serem institucionalizadas coletivamente, algumas medidas têm obtido sucesso no fomento da equidade de gênero – como a regulamentação de um trabalho (as domésticas de Ávila), o incentivo interno da empresa para a equidade de gênero (as engenheiras de Lapeyre) ou o Programa para Igualdade de gênero e sociedade do conhecimento (as cientistas e acadêmicas de Abreu et al.). Pelo menos cinco artigos do livro (Maruani & Meron; Silvera; Segnini; Lapeyre; Lombardi & Gonzales) dão mostras de que, quando as mulheres começam a ocupar alguns postos mais privilegiados, elas esbarram nos famosos tetos de vidro. Essa espécie de barreira invisível que impede a ascensão hierárquica feminina no trabalho só se desfaz quando sua existência é coletivamente afirmada e combatida, haja vista sua própria substância estar em dimensões mais abstratas e intangíveis do que a simples proibição formal. Ou, como dito por Nadya Guimarães na ocasião do Seminário Gênero e Trabalho no Brasil e na França[1], no mundo do trabalho feminino, “acesso e mobilidade são duas esferas diferentes”. Se as mulheres conseguem entrar, mas não conseguem ascender, há algum mecanismo patriarcal que as impede e, para combatê-lo, primeiramente há que se comprovar sua existência mediante os pares.

uma demanda política pela articulação do “problema do cuidado” e Estado, orientada para a desobrigação das mulheres das funções de cuidadoras domésticas de crianças, de idosos, de pessoas com necessidades especiais etc.

Enfim, como afirma Kergoat, “o trabalho foi redefinido e mudou de estatuto: de uma simples produção de objetos, de bens, ele se transformou no que alguns chamam de ‘produção do viver em sociedade’. O trabalho torna-se assim uma atividade política” (p.18). E nessa atividade, como mostram os 23 artigos de Gênero e Trabalho no Brasil e na França, as mulheres ainda têm muito a agir em prol de sua própria autonomia.

[1] Realizado em Julho de 2016 na Fundação Carlos Chagas, em São Paulo.