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Modernidade em cores regionais

Benno Alves
Resenha

Resenha de Weinstein, Barbara. The color of modernity: São Paulo and the making of race and nation in Brazil. Durham and London: Duke University Press, 2015. 458 p.

 

O livro mais recente de Barbara Weinstein, The color of modernity: São Paulo and the making of race and nation in Brazil, lançado no início de 2015, é um daqueles trabalhos que consolidam um modelo para os estudos futuros. Nesse sentido, seu alcance pode ir bem além do que o tema sugere e inspirar pesquisadores a investirem mais na intersecção entre sociologia e história.

A obra conjuga um ponto de partida teórico desafiador com pesquisa histórica ampla e rigorosa, a qual vinha sendo levada a cabo pelo menos desde 2003 (cf. Weinstein, 2003). Weinstein aponta o sentido crítico dessa combinação em sua fala na conferência da American Historical Association: ir para além da proposição antiga de que discursos sobre o sucesso e o fracasso econômicos de povos e regiões naturalizam as desigualdades e questionar mais a fundo como eles operam para produzir e aprofundar as desigualdades, na condição de elementos ativos (cf. Weinstein, 2008). É essa a diferença que, em The color of modernity, a autora marca em relação à proposição do economista Albert O. Hirschman acerca das desigualdades regionais (p. 2) – e que se revela central em sua investigação sobre a formação de uma identidade regional, a paulista, no seio de uma nação profundamente desigual.

O primeiro capítulo tem por objetivo provar uma tese importante para a sustentação do argumento do livro: a de que uma ideologia regional a relacionar progresso, industriosidade, iniciativa, virilidade e branquidade – entre outras “virtudes” – já começara a vingar em São Paulo mesmo antes de a região ter se tornado uma das mais ricas e, eventualmente, a mais poderosa do Brasil. O bandeirantismo, tema dileto de intelectuais da região no século XIX e no início do seguinte, é analisado por Weinstein como o ancestral da narrativa da “São Paulo triunfante” que se consolidaria em meados do século XX. O espírito desbravador e audaz que os ideólogos paulistas queriam ver nos bandeirantes se transfigurou na iniciativa econômica do empresário capitalista; a “sobriedade” do estilo de vida, em industriosidade e vocação para o trabalho, e assim por diante.

Desse modo, a narrativa da região “que deu certo” não pode ser concebida somente como consequência ou justificativa do sucesso político e econômico. Na visão de Weinstein, a narrativa contribuiu para produzi-lo, proposição afinada com o conceito de “trabalho ideológico” utilizado pela autora (p. 31). Duas questões ficam em aberto, todavia: como avaliar o peso de uma tal narrativa e como explicar seu surgimento e sua aderência. Nas conclusões, Weinstein alerta que não é possível separar claramente causas e consequências no caso analisado. Resta o desafio de aprofundar a compreensão das razões pelas quais em determinadas regiões desenvolvem-se narrativas “triunfantes”, mesmo antes de qualquer significativo triunfo político ou econômico, enquanto noutras vingam narrativas regionais mais modestas, ou até conformistas. O livro dá uma contribuição fundamental, porém não a resposta do problema.

Uma ideia cuja centralidade na obra precisa ser destacada é a de região. O livro deixa claro que dois modos de compreendê-la devem ser evitados. O primeiro é representar a região (assim como a nação) em termos “estritamente espaciais” (p. 9). A preocupação em afastar de início uma definição assim restrita influenciou a ressalva de Stanley Blake em seu trabalho sobre o regionalismo nordestino (no qual foi orientado pela própria Weinstein). Para Blake, seria importante diferenciar sua investigação sobre a formação da ideia de “nordeste” e da figura do “nordestino” das pesquisas sobre regiões e regionalismos realizadas por brasilianistas nos anos 1970, que partiam de definições estritamente espaciais e políticas (Blake, 2011, p. 12). A segunda noção que deve ser evitada é a que opõe região e nação como alicerces excludentes do pertencimento e da identidade. Weinstein defende que o regionalismo paulista continha um projeto nacional; hierárquico, é verdade, que colocava São Paulo no topo e no centro da nação, mas, precisamente por isso, um projeto de escopo nacional (p. 9).

Em termos positivos, a ideia de região que põe em movimento o argumento do livro é sobretudo um modo de imaginar e representar grupos sociais. Não pressupõe, portanto, a existência de uma base “real” – como um território, por exemplo – a tornar mais ou menos óbvios ou necessários a existência de uma região e seus limites. Na construção discursiva da região, esses limites se fazem presentes, mas são flexíveis e podem ser redefinidos e reinterpretados. O território, a língua, a “raça”, características étnicas e outros elementos que geralmente são tomados como distintivos dos grupos sociais são elementos mobilizados no processo de constituição discursiva da região, mas eles não o explicam. Importa, para Weinstein, investigar como uma região vem a ser imaginada em relação a outras e onde é colocada a linha demarcatória do pertencimento.

Em relação a uma literatura recente (e crescente) preocupada com o surgimento, transformação e desaparecimento de “fronteiras” [boundaries] entre grupos sociais (cf. Lamont, 2002; Wimmer, 2013), a obra de Weinstein pode ser vista de duas maneiras distintas. De um lado, aproxima-se, por sua preocupação com o caráter relacional da construção das distinções entre grupos, bem como pela abordagem em termos de processo – dois pressupostos, entretanto, dificilmente contestados abertamente nos dias de hoje. Por outro lado, afasta-se, pelo caráter histórico, e não comparativo, da análise, o que implica também que, à diferença da teoria proposta por Wimmer, o conteúdo do processo histórico importa mais do que a sua forma (ou do que a possibilidade de enquadrá-lo em uma tipologia sociológica).

A análise de The color of modernity é organizada em torno a dois eventos fundamentais para a formação da identidade paulista: a breve, mas intensa, guerra de 1932 contra o governo nacional, e as comemorações do quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954. A estratégia de centrar a pesquisa e a análise em eventos muito diferentes, mas de sentido convergente, é bastante efetiva. O primeiro deles, o conflito de 1932, é especialmente rico em documentação e em interpretações. Naquele momento, foi febrilmente elaborada e disputada pelos paulistas a oposição entre seu estado, sua terra e seu povo e o resto do país, muitas vezes pensado em termos não simplesmente nacionais, mas na forma de outras regiões – principalmente o nordeste. Já o aniversário da cidade de São Paulo, em 1954, foi menos abundante tanto em exaltação cívica quanto em documentação. Assim, nessa parte, a análise apoia-se menos em declarações inequívocas de superioridade regional por parte de membros das elites paulistas (que, todavia, não deixaram de surgir em 1954) e mais em indícios, indiretos, tais como os encontrados na composição e nos objetivos dos festejos oficiais preparados pelas autoridades para a ocasião. Weinstein mostra que o sentido da construção [making] da identidade regional nesses dois eventos não é só convergente, mas também complementar: em 1932, urgência de afirmar a superioridade regional no calor do conflito e, logo, na contramão da rápida e traumática derrota militar sofrida por São Paulo; em 1954, celebração da inquestionável posição dianteira do estado na economia nacional e de seu “cosmopolitismo”.

Contrastando ainda esses dois momentos, a autora nota que a retórica do sucesso regional se manteve mais ou menos inalterada: baseava-se na ideia de que São Paulo era uma exceção (condensada na questão retórica “Por que São Paulo?”), bem como nas imagens idealizadas de bandeirantes, da “civilização do platô” e na alegoria da locomotiva a puxar vagões vazios (representando os demais estados brasileiros). Manteve-se, inclusive, a associação entre progresso e branquidade, em ambos os momentos tributária de uma dupla exaltação histórica: da sociedade luso-brasileira colonial e dos imigrantes (principalmente os europeus). Mas duas coisas já não podiam ser iguais em 1954. Primeiro, os argumentos deterministas e raciais perderam espaço. Segundo, não era mais possível (ou desejável) invocar as comemorações em nome de “todo São Paulo”, como foi a regra durante o conflito de 1932 (p. 262).

Essa descoberta sobre a mudança na linguagem da superioridade regional abre uma pista frutífera para as pesquisas sobre o período pós-1945 no Brasil. Se é verdade que a época é comumente caracterizada pelo nacionalismo e pelo triunfo da ideia de democracia racial (ou seja, pela recusa formal do racismo), Weinstein sugere que “a diferença ‘regional’ tornou-se uma categoria ainda mais útil para naturalizar e explicar as desigualdades que definiam tantos aspectos da sociedade brasileira” (p. 230). Portanto, considerando a proposição inicial do livro sobre o poder determinante das ideologias regionais, compreende-se a atenção a dois momentos decisivos em que tomaram corpo ideias que iriam moldar tanto as representações quanto as relações econômicas e políticas entre as regiões do país.

Apesar da delimitação do foco da pesquisa nos dois eventos, o livro cobre uma variedade de temas. As expressões do regionalismo paulista são exploradas em suas intersecções com gênero, raça e classe. A autora insiste, nessa medida, que “o paulista” definido pela ideologia regional era homem, branco e de classe média. Buscando colocar em perspectiva e questionar cada uma dessas definições, dedica um capítulo à investigação da figura da mulher paulista e outro à crítica da noção de que a esfera pública paulista era composta fundamentalmente por cidadãos de classe média. Emergem à cena, desse modo, sujeitos mantidos à sombra das definições oficiais.

Já questão racial é discutida ao longo de praticamente todo o livro. Weinstein se mantêm atenta para os “lugares” reservados aos negros nas representações regionalistas, acompanhando as transformações desses “lugares” nos diferentes momentos. O mesmo para as possibilidades de atuação política dos negros. Destaca-se a persistência de um “lugar do negro”, mesmo em diferentes momentos e em situações contrastantes. A análise de dois casos é reveladora.

Primeiro, o da Legião Negra, batalhão formado por negros e comandado por um oficial branco, que combateu por São Paulo em 1932 (foi uma das unidades que mais participou de confrontos, aliás). Havia, pelo menos, duas razões pelas quais a Legião era importante mesmo para os membros das elites que relutavam em reconhecer a presença e a importância dos negros em São Paulo: ela era um emblema de que a causa paulista não era exclusivista ou racista (p. 144), apesar de os soldados brasileiros serem frequentemente retratados durante o conflito na imprensa de São Paulo como hordas de nordestinos mercenários, mestiços e incultos e os soldados paulistas como rapazes brancos, de classe média e voluntários (situação que faz pensar na guerra de imagens pela definição do público dos protestos de rua atuais). Além disso, a Legião era uma unidade valorosa, da qual dificilmente seria possível abrir mão, no seio de um exército formado basicamente pela força pública paulista, menos equipada do que o exército nacional, e por voluntários inexperientes. A intrigante formação de uma unidade exclusivamente negra em plenos anos 1930, fenômeno peculiar ao esforço de guerra em São Paulo, leva Weinstein a questionar se a mobilização em bases raciais não seria especialmente aceitável e relevante naquele contexto, provavelmente à diferença do resto do país (p. 135). E a sugerir uma possível relação com a intensidade da discriminação racial e com a emergência precisamente em São Paulo de um movimento negro ativo nos anos 1930, como documentaram Florestan Fernandes (2008) e, recentemente, Paulina Alberto (2011).

A segunda situação, que contrasta e atesta a permanência do “lugar do negro” na identidade regional paulista, é a mobilização política pelo reconhecimento dos negros e de sua contribuição para São Paulo durante as comemorações de 1954. Representantes negros conseguiram apenas com muita dificuldade concluir a encomenda de uma estátua da “Mãe Preta” e incluir sua inauguração entre os eventos oficiais do quarto centenário da cidade de São Paulo. À diferença da atitude em relação aos grupos imigrantes, o comitê organizador não tinha especial interesse em valorizar a presença e a contribuição dos negros para a cidade.

Voltando um pouco, a hipótese de Weinstein sobre a saliência da discriminação racial em São Paulo segue sugestão de Alberto e ajuda a revelar, com efeito, uma falta importante na obra. Se é verdade que São Paulo se definiu, ao longo do século XX, pela associação entre progresso, modernidade, imigração e branquidade, também é verdade, como notou a própria autora, que a sociedade local se tornou cada vez mais plural e menos possível de enquadrar nesses termos restritos – devendo-se destacar a expressiva migração nordestina para a cidade a partir da década de 1950. Em 1954 já era muito difícil calcar as comemorações em uma definição tão exclusivista da “sociedade paulista” (ou paulistana, o que é mais ou menos indiferente tanto por causa do conceito de região adotado quanto pelo caráter intercambiável da delimitação nas próprias fontes). São Paulo permaneceu o centro econômico do país, mas no pós-guerra a imagem do Brasil “branco” se deslocava mais para o sul. A autora mostra que o grande “outro” implicado na formulação do regionalismo paulista, seu contraste, foi sempre o nordeste. No entanto, deixa escapar quase completamente, talvez por uma eloquente ausência nas fontes, um sul com o qual o regionalismo paulista parece possuir relação complexa; do qual às vezes se vê como parte, às vezes como expressão exacerbada, urbana, que extrapola o provincianismo, ou às vezes, ainda, o qual vê simplesmente como mais um “outro”.

Foi precisamente nos anos 1950 que surgiram as formulações mais diretas de uma “sociologia do Brasil meridional” branco, em oposição aberta à ideia do Brasil mestiço de Gilberto Freyre (como exemplo notável, cf. Martins, 1989 [1955]). Ser radicalmente consequente com o conceito de região adotado implicaria ter de considerar o regionalismo paulista no interior de um contexto no qual outros regionalismos disputam o mesmo campo de ideias, em busca de definir regiões cujos contornos e características pouco têm de evidente. Ainda que as relações com outras ideologias regionais em formulação possam não aparecer claramente nas fontes, seria um ganho para a análise ter em mente suas prováveis implicações nas tomadas de posição dos atores envolvidos na construção do regionalismo paulista – se não como foco de análise, ao menos como balizas. Esse embate pela definição racializada das regiões brasileiras não teria também determinado, em associação com os outros fatores levantados por Weinstein, aquela transformação na retórica da superioridade regional?

The color of modernity é particularmente sugestivo para os cientistas sociais e historiadores interessados em investigar raça sob a perspectiva da construção das ideias raciais e suas transformações. No Brasil, ainda há muita pesquisa por fazer se assumimos que raça e os modos de categorizar racialmente (duas realidades sociológicas inseparáveis) têm história e se desenvolvem de forma relacional. Estabelecendo um modo de conectar esse problema ao da desigualdade (regional) e à construção de ideologias regionais, Weinstein indica um caminho promissor, em particular para as pesquisas históricas sobre branquidade (ou branquitude), que abordam a construção e as transformações do racismo com foco nas formulações dominantes – ou no lado dominante das fronteiras raciais. O livro deveria ser traduzido o quanto antes, pois é excelente e de grande interesse para os pesquisadores no Brasil.

 

Benno Alves é doutorando em sociologia pela Universidade de São Paulo

 

 

 

Referências

 

ALBERTO, Paulina. Terms of inclusion: black intellectuals in twentieth century Brazil. University of North Carolina Press, 2011.

 

BLAKE, Stanley. The vigorous core of our nationality: race and regional identity in Northeastern Brazil. University of Pittsburgh Press, 2011.

 

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Global, 2008 [1964].

 

LAMONT, Michèle; MOLNÁR, Virág. The study of boundaries in the social sciences. Annual Review of Sociology, n. 28, p. 167–195. 2002.

 

MARTINS, Wilson. Um Brasil diferente: ensaio sobre fenômenos de aculturação no Paraná. São Paulo: T. A. Queiroz, 1989 [1955].

 

WEINSTEIN, Barbara. Racializando as diferenças regionais: São Paulo X Brasil, 1932. Esboços, n. 13, v. 16, p. 281–303. 2006.

 

______. Developing inequality. American Historical Association Presidential Address, 2008. Disponível em: <https://www.historians.org/about-aha-and-membership/aha-history-and-archives/presidential-addresses/barbara-weinstein>. Acesso em: 4 abr 2016.

 

WIMMER, Andreas. Ethnic boundary making: institutions, power, networks. Oxford University Press, 2013.