Flores, votos e balas

Camillia Cowling
Resenha

Angela Alonso, Flores, Votos e Balas: o movimento abolicionista brasileiro (1868-88). São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

O ano atual, em que no Brasil se comemora o 130º aniversário da abolição oficial da escravidão no continente americano, oferece uma oportunidade importante para repensar osprocessos que possibilitaram esse acontecimento. Flores, Votos e Balas, da socióloga Angela Alonso, é fruto de pesquisa com uma extensa variedade de fontes, entre elas os jornais da época; as escrituras e correspondências nacionais e internacionais dos principais abolicionistas – que são, até certo ponto, os protagonistas da interpretação de Alonso –; os debates parlamentares; e as atas e correspondências das múltiplas sociedades abolicionistas que, dispersas pelo país afora, juntos compunham, na visão da autora, o primeiro autêntico movimento social brasileiro.

Histórias da abolição ficaram, durante um bom tempo, fora de moda em termos historiográficos. As interpretações marxistas tendiam a associar o fim da escravatura com mudanças estruturais econômicas. Aliás, centrando-se especialmente no momento das comemorações do centenário de 1988, tanto historiadores quanto ativistas criticaram a “fraude” da abolição e, em particular, a “hagiografia” historiográfica que havia permitido que as principais figuras abolicionistas, especialmente os brancos, se convertessem praticamente em santos. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se uma onda muito forte, que vigora ainda hoje, de histórias sociais de escravidão que focavam a agência escrava, e especialmente as lutas legais dos próprios escravizados, durante os últimos anos da escravidão no Brasil. Porém, mais recentemente, além dessas correntes, os historiadores começaram novamente a focar a abolição em si, pensando nela como o resultado de um esforço amplo, disperso e coletivo, que envolvia vários diferentes atores sociais e políticos. É nesta linha que se insere Flores, votos e balas, de Angela Alonso, trazendo uma série de contribuições importantes.

Inspirando-se nas obras de sociólogos como Charles Tilly, a autora analisa o abolicionismo como movimento social. Esta abordagem tem várias vantagens. Em primeiro lugar, ela enfatiza que a abolição não era previsível nem muito menos inevitável em 1868, quando começa a história contada no livro. Ao contrário, ela foi o resultado de uma longa e difícil luta política. Aqueles que empreenderam essa luta tiveram que se organizar e mobilizar, atingir visibilidade local e nacional por sua causa, e obter resultados concretos dentro e fora do parlamento. Precisaram, portanto, de estratégias múltiplas, um bom senso de timing, e a capacidade de mobilizar amplos setores da população contra uma prática que havia sido normal no Brasil durante séculos. A autora enfatiza os diferentes métodos e estilos empregados pelos integrantes do movimento, que tiveram que se adaptar às circunstâncias que mudavam.

A definição de “política” adotada no livro é ampla, seguindo as tendências recentes de história política da América Latina do século XIX. Ela não se limita aos debates dentro do parlamento brasileiro ou às ações do imperador e da família imperial. Ao contrário: Alonso enfatiza que “um movimento social não é ator coletivo orgânico, é maneira extraparlamentar de fazer política, à qual recorrem grupos sem acesso ou capacidade de impactar a política institucional” (p. 352).  Assim, além da política “alta,” Alonso presta muita atenção a espaços mais diversos, incluindo os teatros, as praças e as ruas do país afora. Tais espaços se converteram no palco de vigorosas campanhas abolicionistas. Os líderes do movimento – Rebouças, Gama, Patrocínio, Nabuco – funcionam como os elos centrais da narrativa, cada um com sua forma diferente de “fazer política.” A maioria deles eram negros ou mulatos, e a autora analisa suas trajetórias pessoais como forma de pensar em questões mais amplas de raça e racismo e nos constrangimentos que esses homens enfrentavam na sociedade brasileira. Além das figuras principais, um elenco de outras personagens apoia o drama: pessoas diversas dos setores médios urbanos, muitas delas não-brancas. Aparecem, também, embora talvez um pouco às margens da história contada aqui, algumas pessoas escravizadas. Esta definição abrangente de quem era capaz de agir “politicamente” permite que Alonso questione, no penúltimo capítulo, algo que ela descreve como um dos grandes “mitos” da historiografia do período: o “mito” de um público brasileiro passivo e apolítico (p. 357).

O livro tem também o mérito de contar uma história verdadeiramente nacional, não somente uma história da Corte ou do sudeste. Ele se enfoca na capital, mais também presta muita atenção a outras regiões, com suas campanhas semiautônomas. Pernambuco, Ceará, e Amazonas desenvolveram movimentos que muitas vezes avançavam mais rápido, e de maneiras diferentes, do que era possível na capital, e acabaram influenciando profundamente os acontecimentos na Corte. Nos últimos capítulos, a análise se volta para as áreas de plantation das províncias de Rio de Janeiro e São Paulo. A autora difere em sua perspectiva do sociólogo e politólogo Sidney Tarrow, que sugeriu que a difusão de formas de ação costuma operar do centro para a periferia. Para Alonso, no caso do abolicionismo brasileiro, “houve vetor a partir do centro político, a Corte, em direção às localidades, mas também a partir de polos regionais, como o Ceará” (p. 425, n. 38).

A autora conta, assim, uma história nacional, mas ela está sempre consciente da importância do contexto internacional que moldou a forma como o abolicionismo brasileiro se desenvolveu. Neste sentido, ela não se restringe a examinar as viagens e correspondências internacionais dos abolicionistas principais. Ela mostra também como o movimento brasileiro desenvolveu um “repertório” político que às vezes adotava, mas com mais frequência adaptava, as retóricas, argumentos e estratégias de outras campanhas abolicionistas do Mundo Atlântico. Assim, conta uma história atlântica sem reduzir as particularidades do abolicionismo brasileiro a uma mera cópia de outras campanhas e contextos.

Outro mérito, conectado com linhas de pesquisa recentes, é que o livro não só analisa os métodos e argumentos abolicionistas isoladamente, mas examina como evoluíram em conjunto com argumentos e táticas escravistas. A significativa força do escravismo, o nível de organização que atingiu e os argumentos flexíveis que empregava, que eram capazes de se alterarem segundo o contexto político, são enfatizados no livro. As táticas empregadas pelos escravistas variavam, desde argumentos sutis sobre “escravismo de circunstância” (a ideia de que a escravidão era um mal necessário), até o uso bastante amplo, especialmente durante o governo do barão de Cotegipe, do poder coercitivo do Estado para reprimir fisicamente e violentar abolicionistas e simpatizantes (aqui entram as “balas” do título). Para entender melhor a dinâmica do abolicionismo, Alonso nos mostra que é necessário entender o “inimigo”: o escravismo, organizado, consciente e ativo. Assim, Flores, Votos e Balas nos ajuda a entender que, sem os esforços e estratégias, também organizados, conscientes e ativos, do movimento abolicionista, a escravidão teria permanecido por muitos anos mais.

 

Camillia Cowling é professora de História da América Latina na Universidade de Warwick, Reino Unido.