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Os
marubo no trânsito entre dois mundos
Este ensaio trata da relação entre territórios indígenas e
espaços urbanos. Tal relação é aqui estudada pelo ponto de vista da
mitologia e do xamanismo marubo (povo falante de língua pano e habitante da
Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas). As reflexões elaboradas pelos xamãs
marubo sobre os estrangeiros e as cidades são tributárias de estruturas de
fundo do pensamento ameríndio, que vêm sendo elucidadas nas últimas décadas pela
etnologia americanista. A falta de maior difusão os avanços da etnologia, seja
no próprio ambiente acadêmico, seja em um ambiente cultural ou político mais
amplo, tem causado uma série de equívocos na interpretação dos trânsitos entre
floresta e cidade e das estratégias indígenas de ocupação do espaço urbano. As
lacunas de informação sobre tais deslocamentos possuem trazem graves
conseqüências graves para os povos da floresta e suas relações com o mundo
não-indígena. A proliferação de julgamentos equivocados tem se tornado
crescente, num contexto em que a manutenção da demarcação contínua de grandes
reservas tais como a Raposa Serra do Sol está em debate e que a mídia, na
esteira de uma opinião pública ignorante, não fornece matéria suficiente para a
reflexão sobre temas obscuros e (aparentemente) distantes. Pretende-se aqui oferecer alternativas críticas e
etnograficamente embasadas para certos pressupostos ainda marcados por uma base
romântica e positivista. Tais pressupostos sustentam, em linhas gerais, que os
supostos "índios" genéricos não possuem pressupostos intelectuais, ou ao menos
possuem apenas alguns, tão frágeis a ponto de podereme capazes de desaparecer
por conta dosem meio aos supostos processos de integração (desmentidos pela
etnologia e pelos próprios acontecimentos). O tratamento assimétrico é
hegemônico; serve de justificativa para argumentações unilaterais que não levam
em consideração as lógicas dos pensamentos ameríndios, menosprezando o ponto de
vista da floresta como uma fonte possível de interlocução. Proliferam
julgamentos supostamente "especializados" sobre assuntos que a antropologia
considera, alguns, como absolutamente ultrapassados (o problema da aculturação,
por exemplo) e, outros, como um desafio ao conhecimento (o problema da
transformação). Aldo Rebelo, por exemplo, disse recentemente em um jornal de
grande circulação que "a cosmogonia tem valor para as populações que não
tiveram contato com o não-índio"[2]. Entenda-se, pela negativa, que aqueles
que tiveram "contato" não têm mais uma "cosmogonia", ou ao menos perderam a
credibilidade e o direito para tal, pois agora usam shorts adidas, já
abandonaram o paleolítico.
Afirmações deste desse gênero espalham-se por
diversos setores da intelligentsia
nacional, como podemos
constatar na seguinte passagem de um artigo de Hélio Jaguaribe, recentemente
publicado em outro jornal de grande circulação: "...a
perpetuação de culturas nativas, em que se fundamenta, no Brasil, a política de
reservas, carece de sentido. Em termos antropológicos, pois é impossível sustar
o processo civilizatório. As populações civilizadas do mundo são descendentes
de populações tribais, que seguiram, em todos os países, o secular caminho que
leva paleolíticos a se transformarem em neolíticos e estes, em
civilizados."
O trecho, que se baseia em pressupostos
similares aos de Rebelo, dispensa maiores comentários. Basta dizer que varre
para debaixo do tapete os genocídios que movimentaram tal "secular caminho",
além de ser uma confissão de ignorância com relação ao conceito de cultura,
basilar para disciplinas tais como a sociologia e a antropologia. Em um
editorial recente, o jornal O Estado de São Paulo
insiste em outro equívoco e lança uma cortina de fumaça nos direitos
originários das populações ameríndias sobre seus territórios, quando diz que
"...a autonomia de enclaves nacionais em nossa base territorial pode se
tornar extremamente perigosa"[4].
Este não é um ensaio sobre processos de demarcação de reservas indígenas, mas
sim sobre choques de pressupostos, um exercício de investigação das perguntas
alheias (ameríndias) ainda ignoradas pela cultura nacional. Tratamos aqui de
"povos que não têm a terra como um valor, pois vêem o mundo como algo
ilimitado", de acordo com a afirmação precisa da antropóloga Nádia
Farage[5].
Em que consiste tal visão avessa às quantificações da mercadoria e aos
positivismos de plantão? O caso marubo nos fornecerá algumas pistas.
Babel da floresta A formação da sociedade hoje conhecida como "marubo" (e de
tantas outras ameríndias) esconde uma configuração relacional característica da
Amazônia ocidental, marcada por uma complexa rede de trânsitos e circulações
que, desde os tempos pré-colombianos, parece determinar os modos de se atuar e
refletir sobre a alteridade, os impactos da presença dos brancos e da
urbanização. Em outros termos, "marubo", um nome dado para um determinado
coletivo pela história da relação com os invasores brancos e peruanos, é algo
distinto das hordas de caçadores e coletores perdidos na selva, ou de
sociedades atômicas isoladas, fechadas em si próprias. O que chamamos de
"sociedade marubo" formou-se em meados do século XIX na região das cabeceiras
dos rios Curuçá e Ituí, a partir de remanescentes de povos falantes de línguas
da família Pano. Estes remanescentes, dizimados por conflitos internos e,
progressivamente, pela pressão das explorações econômicas na região,
aglutinaram-se sob a influência de um poderoso xamã (romeya)
e chefe (kakaya) chamado João Tuxáua. No
final do século XIX e começo do XX, João Tuxáua passa a reunir os povos
dispersos sob a perspectiva do parentesco e do xamanismo: faz com que as
pessoas deixem de guerrear entre si e as estimula a adotar um modus vivendi baseado no trabalho em grandes
roçados, na elaboração de grandes festivais (saiki) e no aprendizado de um vasto
conhecimento mitológico e xamanístico[6].
Os nomes provenientes de antigos grupos
tribais transformam-se então em
segmentos de uma nova morfologia social[7],
tais como Povo-Azulão (Shanenawavo),
Povo-Sol (Varinawavo), Povo-Jaguar (Inonawavo), Povo-Japó (Rovonawavo),
Povo-Arara (Shawãnawavo), entre outros. O
sistema social acaba assim por guardar de maneira particular os
vestígios da diversidade anterior - diversidade que se faz notável, por
exemplo, no papel central que a oratória e a diplomacia possuem na vida
social[8],
bem como nas próprias comparações com os brancos: "somos como vocês, que se
dividem em portugueses, brasileiros, peruanos, americanos...". A diversidade característica da formação da sociedade marubo faz
dela um intrigante exemplo das redes que constituem a paisagem ameríndia e, em
nosso caso, a Amazônia ocidental. Vastas redes de troca entre os Andes e os
povos da Amazônia são conhecidas pelos estudiosos[9];
a existência de grandes ocupações populacionais e de rotas de circulação tem
sido alvo de bem sucedidas pesquisas etnológicas e arqueológicas, tal como
vemos nos trabalho sobre as antigas ocupações do alto Xingu desenvolvidos por
Heckenberger e outros)[10].
O sistema multiétnico e multilíngüe do alto rio Negro, que articula subgrupos
aruak e tukano através de antigas e complexas redes relacionais, em muito
determina a atual composição da cidade indígena de Iauaretê (AM), como mostra
Andrello[11].
A multiplicidade interna dos povos pano espalhados pela Amazônia ocidental, as
conhecidas relações estabelecidas com os falantes de quéchua ou com o Inca[12],
são exemplos de que sociedades com a marubo não são entidades fechadas e
isoladas, mas sistemas relacionais
abertos. Para estes
sistemas, os trânsitos entre aldeia e cidade são centrais. Os Marubo, muito
embora vivam em aldeias que distam dias de viagem das cidades do vale do rio
Juruá e do alto Solimões, têm propensão especial para os deslocamentos e
interlocuções. A distância de suas aldeias, no entanto, garantiu aos Marubo uma
certa proteção com relação às transformações radicais sofridas pelos povos do
Juruá por conta da exploração da borracha. (Os Kaxinawa, assim com os Yaminawa
ou os Yawanawa, deixaram de viver em malocas e adotaram quase que
exclusivamente as casas de tapiri utilizadas pelos seringueiros[13]).
Nos dias de hoje, o uso de malocas se alia à manutenção de um xamanismo ativo,
cujas características muito têm a ver com as multiplicidades e diplomacias que
constituem as redes ameríndias desde tempos imemoriais. Como se relacionam com
o fluxo intenso para as cidades? Tratam-se de fato de duas experiências e modos
de socialização radicalmente incompatíveis? Por quais critérios tais trânsitos
são pensados? A mitologia e o xamanismo fornecerão algumas pistas.
Os marubo possuem uma complexa mitologia transmitida através de
longas narrativas cantadas que, em linhas gerais, pode ser compreendida como
uma mitologia de viagem, centrada nos temas da aliança e da afinidade[14].
O canto de surgimento dos antepassados (Wenía
saiti), por exemplo, narra a viagem dos povos antigos desde as terras
localizadas a jusante, na direção de um grande rio (noa), até as terras das cabeceiras. Ao longo do
trajeto, os antepassados encontram estrangeiros habitando as beiras do rio
noa (cuja localização é identificada às
regiões de Manaus, São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro), em casas com
criações de galinhas e roçados. Os antepassados mantêm relações sexuais com as
mulheres destes e continuam seguindo viagem ao longo do grande rio. Num
determinado momento, encontram a famosa Ponte-Jacaré (kape tapã), um tema difundido na mitologia pano.
No início da ponte, estão novamente alguns estrangeiros vigilantes, donos de
cordas de ferro (mane cheo). Os antigos
chefes e xamãs atravessam a ponte e, já do outro lado, chamam as pessoas
insensatas e lascivas que caminhavam atrás deles para a travessia. Quando estão
no meio do rio, os chefes pedem emprestadas aos estrangeiros suas cordas de
ferro, com a quais decepam o pescoço da ponte monstruosa. Livram-se assim da
presença incômoda dos outros parentes, que ficavam atrás brincando com seus
pênis e não sabiam escutar palavras importantes. Com o pescoço decepado, a
Ponte-Jacaré vira e os parentes lascivos caem nas águas dos rios, morrendo
retalhados pelas piranhas dentadas e por estranhas lâminas aquáticas. Suas
almas ou duplos (vaká) partem então
novamente a jusante, dando origem às prostitutas e aos arruaceiros das cidades.
Os chefes e xamãs continuam sua viagem. A mitologia
marubo, cujas complexas conexões não terminam (assim dizem os próprios xamãs),
elabora diversas outras reflexões sobre os não-indígenas que, de um modo geral,
seguem o espírito das clássicas considerações desenvolvidas por Lévi-Strauss na
Histoire de lynx. Os mitos pan-ameríndios
sobre o surgimento dos brancos, indagava-se o antropólogo francês, seriam uma
reação à chegada "dos emissários de um outro mundo"?[15]
A resposta é conhecida:
Fenômeno incompreensível, dizia eu, a não ser que
se admita que o lugar dos brancos estava prefigurado nos sistemas de pensamento
fundados sobre um princípio dicotômico que, passo a passo, obriga a duplicar os
termos, de modo que a criação dos índios pelo demiurgo tornava simultaneamente
necessário que ele houvesse criado também os não-índios.
A versão marubo deste tema se encontra na história de Shoma
Wetsa, uma mulher de ferro que possuía lâminas afiadas nos braços[17],
com as quais exterminava seus inimigos para, em seguida, devorá-los. Shoma
Wetsa vivia em sua maloca com a irmã e o filho, Ranẽ Topãne. Andando na
floresta, Topãne encontra Shetã Veka, uma mulher que havia conseguido escapar
do naufrágio da Ponte-Jacaré, e decide levá-la para casa como sua esposa. Shoma
Wetsa não gosta da decisão do filho, pois sabe que sua nora é uma pessoa ruim,
que deveria ter morrido no episódio da Ponte. Seu filho, no entanto, tem três
bebês com a mulher e os deixa sob os cuidados de Shoma Wetsa que,
sucessivamente, os esquarteja e devora. Dando-se conta disso, Topãne decide
matar sua mãe, mas as diversas tentativas fracassam, pois a mulher é de ferro.
Em um determinado momento, Topãne percebe que a mãe teme o fogo. Decide jogá-la
dentro de um buraco cavado no meio da maloca, onde há uma fogueira. Antes de
morrer queimada, Shoma Wetsa aconselha seu filho a preparar duas espécies de
ayahuasca[18],
a ayahuasca do estrangeiro (nawã oni) e a
do pássaro txõtxõ (txõtxõ oni). Em seguida, ela explode nas
chamas: seu fígado cai em algum lugar do rio noa
e se transforma em machado; seus dentes, em ouro; seus ossos, em
ferro. Atrapalhado, Ranẽ Topãne troca as infusões de ayahuasca e acaba por
tomar aquela que deveria ter ficado reservada para o duplo de sua mãe, que
retornaria após a morte do corpo. Quando a mãe vem chegando de volta à maloca,
Topãne e sua mulher pensam se tratarem dos brancos violentos. Shoma Wetsa se
ofende e parte para jusante levando os duplos de seus três netos mortos,
dizendo que os brancos voltarão em outra era para matá-los. Um dos duplos de
Shoma Wetsa vai então viver junto com o Inca-Machado (Roe Inka) na direção do poente; o outro vai
viver a jusante, na direção do sol nascente: dão origem aos brancos, tais como
os brasileiros que vivem em Manaus e Brasília. A narrativa está em relação de
transformação com diversos mitos ameríndios sobre a origem dos brancos, tal
como o mito jê de Auké[19],
no qual a figura de D.Pedro II surge a partir de um conflito desencadeado em um
núcleo familiar de antepassados. O mito mostra mais
uma vez que o surgimento dos brancos está prefigurado nas mitologias ameríndias
e não pode ser compreendido como uma mera reação aos efeitos do contato.
Mitologias como a marubo, assim como o próprio processo de formação de tal
sociedade, mostram que "contato" não é a rigor um bom conceito para
pensá-las[20].
No mito acima, vemos como os brancos surgem de um mesmo núcleo familiar
considerado como pertencente aos antepassados: a "dualidade em perpétuo
desequilíbrio" de que falava Lévi-Strauss encontra-se escamoteada na narrativa.
A alteridade, a rigor, é constitutiva de povos como os Marubo: "é como se os
Pano sempre tivessem sabido se acomodar a uma forma de alteridade poderosa, ao
mesmo tempo útil e ameaçadora, atraente e desconcertante, de que os brancos
representariam apenas o último avatar em termos cronológicos", escreve com
precisão Erikson[21].
De fato, para os Marubo e outros Pano, o Inca representa um antecedente dessa
relação que, posteriormente, seria estabelecida com os peruanos caucheiros e,
nos dias de hoje, com os brasileiros[22].
Noutro canto-mito, "Pedindo machado ao Inca" (Inka
roẽ yõká saiti), são narradas as viagens dos antepassados para o
oeste a fim de obter machados de ferro ou pedra junto ao Inca: ao longo do
trajeto, os povos antigos mais uma vez encontram uma série de outros tais como
o "Povo das Mulheres" (Aĩvo Nawa), com
as quais devem copular intensamente a fim de que não sejam devorados. Após uma
série de visitas aos povos que se encontram na viagem, chegam enfim à casa de
pedra do Inca, que lhes oferece uma caiçuma de fezes (poi waka, uma metáfora para café, explicavam-me).
Aquele que a ingerir por inteiro terá um machado bom; aquele que recusar, um
machado ruim. Na posse dos utensílios, retornam para suas terras a fim de
cultivar roçados mais extensos[23].
Hoje em dia, é para as cidades adjacentes à Terra Indígena que os Marubo viajam
para obter instrumentos industrializados, agora, junto aos brasileiros.
Não é apenas nas idas às terras dos estrangeiros
para conquistar ferramentas que multiplicidades de povos se encontram. A
cosmologia marubo é ela própria um emaranhado infinitista de trajetos, povos e
coletivos, visitados pelos xamãs romeya.
Os espíritos yovevo organizam-se também
em sociedades e estendem suas relações de parentesco aos Marubo, cujo xamanismo
é um trabalho de tradução e mediação entre as intermináveis populações do mundo
aquático, dos estratos celestes e subterrâneos. Seus duplos passeiam por tais
habitações como quem passeia pelas cidades: as casas dos espíritos Ni Okevo são todas de pedra, ao modo das casas
dos brancos; o duplo do Sol é um estrangeiro barbado, que vive também em uma
casa de pedra e possui objetos tecnológicos. O xamanismo marubo replica para o
cosmos um esquema similar ao das redes de relação características dos mundos amazônicos:
também aqui os xamãs são "diplomatas"[24],
ao transitarem por uma profusão de coletividades que não deixam nada a desejar
às cidades dos brancos e, de certa forma, as antecipam. O neologismo
"sociocosmos"[25]
aplica-se bem a sistemas xamanísticos tais como o marubo, para o qual o socius ultrapassa os limites visíveis. Com seus
olhares alterados, os xamãs podem ver o mundo da copa das árvores como uma
miríade de aldeias e casas, onde vivem intermináveis espíritos com suas línguas
e costumes distintos. A paisagem, dizem, é mais vasta do que a de cidades como
São Paulo ou Manaus. Ainda que a mitologia ofereça um lugar
para os estrangeiros desde os tempos do surgimento, existem pontos essenciais
de contraste. Os estrangeiros, donos da escrita, não são "pessoas pensadoras"
(chinãivo yora) tais como aquelas que
habitam a floresta: "eles têm escrita mas não sabem pensar", explicava-me um
xamã. Os estrangeiros lêem no papel, objetivam
um conhecimento, que, no caso das "pessoas pensadoras", está
internalizado sob a forma de desenhos geométricos invisíveis, os kene, através dos quais os xamãs são capazes de
traduzir as línguas dos diversos povos-espírito. Não há novidade que escape ao
esquema xamanístico, capaz de retraduzir a diferença em seus próprios termos. A
multiplicidade não é algo desconhecido, mas uma premissa deste sistema
babélico. Se a floresta, vista pelos olhos
alterados, é um conglomerado infinito de habitações, muitas das quais
semelhantes às dos brancos, o espaço das cidades também pode ser,
alternativamente, morada para espíritos de comportamentos mais próximos aos das
"gentes pensadoras". Os espaços são reversíveis, a multiplicação
perspectivista[26]
do xamanismo não se detém a domínios circunscritos. As visões de ayahuasca dos
xamanismos sharanawa e shipibo-conibo, em muito semelhantes ao caso marubo, são
permeadas por espíritos/mestres estrangeiros, dotados de equipamentos e
tecnologias, donos de estabelecimentos comerciais e de instrumentos
sofisticados de medicina[27].
Um xamã com o qual trabalhei em Tabatinga e Leticia, cidades da fronteira entre
Brasil e Colômbia no alto Solimões, e em Cruzeiro do Sul (Acre), dizia que os
espíritos-galinha e os espíritos-sabiá encontram-se ali em multidões. São
tomadores de cachaça e cerveja, mas são pessoas boas: espírito-galinha costuma
entrar no corpo/casa do xamã que canta em sua maloca na floresta. Uma vez ali,
extrai agentes patogênicos do corpo dos doentes. Tal reversibilidade é compreensível através da lógica dos termos
yora ("gente") e nawa ("estrangeiro"). Sentado na varanda da
casa que os Marubo mantêm em Cruzeiro do Sul com o dinheiro de suas
aposentadorias, um homem me dizia que "todos somos
nawa, mas somos yora no meio".
Com isso queria dizer que eles, assim como os estrangeiros (brasileiros,
peruanos, portugueses, colombianos, americanos, etc.), sempre foram compostos
por uma diversidade de coletivos. A posição de uma determinada pessoa dentro de
uma rede de relações marcada pelo parentesco e pela comensalidade é que a
definirá como "gente" (yora) em face dos
"outros" (outra tradução possível para nawa). O par yora/nawa
não pode, portanto, ser compreendido apenas mediante a oposição
"índios/brancos": seu uso é contextual e posicional; segue, de maneira geral, a
lógica da "afinidade potencial" elucidada por Viveiros de Castro[28]
e aplicável aos Pano.
Um branco urbano que passa longas temporadas nas aldeias poderá ser dito yora ao integrar o campo do parentesco de seus
anfitriões, tornando-se um parceiro de comensalidade e um interlocutor na
língua nativa. Um marubo que, ao reverso, passa muito tempo nas cidades poderá
ser considerado como "estrangeirizado" (nawaya) por seus parentes da floresta. Um rapaz
"estrangeirizado", entretanto, ao encontrar esse mesmo antropólogo em uma
cidade, dormindo em um quarto de hotel, chamá-lo-á de nawa
e a si mesmo de yora, mesmo que o
antropólogo fale em sua língua. O modo marubo de
pensar a alteridade não se baseia em cortes ontológicos intransponíveis, tais
como os que se utilizam para fazer o contraste entre os povos da natureza
(floresta) e os da civilização (cidade). Se o retorno a um estado de natureza
nos é vedado, se nosso senso comum deixa de considerar como "índio autêntico"
aquele que abandonou de modo irreversível tal estado para adentrar a
civilização (e a própria civilização como um processo irreversível), o
pensamento ameríndio molda-se alternativamente pela idéia de transformação[30]:
a possibilidade de estender conexões relacionais aos horizontes mais vastos
possíveis é que está em jogo, seja nas regiões do cosmos, seja ao longo da
hidrografia ou nas cidades, através de temporadas ou de vínculos mais
duradouros. A possibilidade de estabelecer vínculos
parece ser, pois, um dos lastros dos sistemas em questão e de seus
pensamentos pelo parentesco[31].
Vamos observar mais detalhadamente como tal predisposição à alteridade e à relação
tem se (des)harmonizado com a vida nas cidades; como, sem que desapareça no
falacioso processo de "aculturação"[32],
convive em conflito com o mundo não-indígena.
Cidade dos brancos As passagens de uma conversa que segue traduzida trazem um bom
testemunho das relações entre os Marubo e as cidades. O narrador é Lauro Brasil,
experiente xamã curador. Agora falecido, Lauro fora em vida madeireiro e
regatão: conhecia bem os costumes dos brancos e as cidades a jusante (Atalaia
do Norte, Tabatinga e Benjamin Constant) e a montante (Cruzeiro do Sul,
Guajará/AM), nas quais possuía amigos, "cumpadres" e outras formas de relação,
muitas das quais estabelecidas com os patrões do comércio do alto Juruá. Passou
boa parte de sua vida madura em viagem, trazendo produtos dos brancos para
serem comercializados nas aldeias do alto Ituí e vivendo longas temporadas nas
cidades, até que se tornou um xamã romeya. Neste tipo de xamanismo desencadeado
por crises e doenças, a pessoa inteira se altera para se tornar capaz de manter
relações de parentesco com os espíritos[33].
A experiência pode ser arriscada e Lauro, que quase chegou a morrer por conta
dela, teve os caminhos que ligavam seu corpo/maloca às casas dos espíritos
desfeitos por seu irmão mais velho, um xamã rezador (kẽchĩtxo). As circulações do xamanismo
possuem, entretanto, afinidade intrínseca com as viagens para as cidades: num
ou noutro caso, exerce-se a diplomacia, o trânsito entre pontos de vista[34].
Lauro falava sobre o início das visitas às cidades e seus
desdobramentos: Pedro: Antes as cidades eram
boas?
Lauro: Antes as pessoas não
entendiam a língua dos brancos. Não viviam nos brancos. Naquela época, a cidade
era boa, era bom viver na cidade. Naquela época,
podíamos ficar nas cidades sem documentos. Mas agora não é assim, agora nós
todos temos que ter documentos, os brancos perguntam, "você tem documento?",
assim costumamos escutar. Por isso agora tem ficado difícil para os jovens que
vão estudar nas cidades. Naqueles tempos nós não tínhamos doença,
nós não tínhamos febre. Mas agora é assim, estou falando destes tempos
recentes, agora não dá para entender a doença, não dá para entender o peso da
doença, não dá para entender o peso da febre. Agora nós queremos tentar aprender a escrever, queremos aprender
a escrever, queremos aprender a língua dos brancos, nós vamos para
os brancos, quando estamos nos brancos nós não entendemos sua língua, como é
que vamos falar...
Pedro: Por que é que as pessoas que moram em Atalaia
ficam assim, tomam cachaça, ficam doidas, mexem com os outros? O que é que tem
de ruim na cidade que faz as pessoas ficarem assim? Lauro: As pessoas ficam assim porque tomam cachaça, querem ver
mulher para transar, ficam buscando confusão. As pessoas tomam
bebida e ficam doidas, as pessoas tomam cachaça e o espírito dela encosta. Eu
passo a querer brigar com esse meu parente de quem eu gosto. Eu me altero, meu
pensamento se altera, o espírito da cachaça passa por você, eh!,
eu fico querendo te matar, fico pensando em brigar
com você. Na cidade é assim. O duplo da pessoa que morreu em briga, do que
morreu em briga [assassinado], seu duplo
se levanta. Tendo morrido, o seu duplo se levanta e encosta em outra pessoa,
encosta em outra pessoa, vai passando por suas costas. Esses espíritos todos, esses espíritos mortos por
assassinato, esses que nós chamamos de espíritos guerreiros,
as pessoas mortas por armas, o espírito da
cachaça, esses todos, uma vez que seus duplos ficaram fortes eles encostam nas
pessoas, matam as pessoas, esses espíritos todos que têm nas
cidades.
Os nossos antepassados, quando
viemos surgindo, quando foram surgindo, o vento
da terra os exterminou e os Japós do Rio Grande
(Ene Iskovo) apareceram,
estes que são as pessoas mais bravas, estes são os donos de vocês,
de vocês estrangeiros, estrangeiros mais bravos, prendedores
[policiais]. O Japó do Rio Grande,
seu duplo é que fez surgir aqueles prendedores. Assim eles surgiram, os Japós
do Rio Grande, os estrangeiros prendedores. Japó do Rio Grande não
é nome de bicho não, é nome de gente, nome de estrangeiro, nome de estrangeiro.
Esses Japós do Rio Grande não sabem pensar mesmo, sabem escrever, entendem
bastante de escrita mas têm pensamento bravo, tem estrangeiro que é assim.
Nós fomos os primeiros donos,
nós surgimos primeiro e vocês surgiram depois, nós surgimos primeiro e, tendo surgido primeiro, tendo
surgido, uma vez que surgimos vocês então surgiram de lá, surgiram
lá há muito tempo, neste lugar que vocês chamam de Europa. Surgindo de lá,
vocês quiseram nos pegar. Fazendo assim, os antepassados de vocês acabaram com
a gente, vieram tomar as cidades da gente, eles
acabaram com muita gente. Quando nossos antigos acabaram, outras pessoas chegaram
juntas quando os antigos acabaram e pegaram a terra, ficaram ali
vivendo juntos.
Assim meu pai contava. Assim vocês vieram, assim vinham
acabando com nossos antigos e pegaram a terra, acabaram com os antigos e pegaram a terra.
Essa terra é nossa, nós surgimos primeiro, mas querem pegar a nossa terra.
Vocês vieram roubando as cidades. As cidades não são de vocês, a terra é nossa,
mas vocês roubaram. Vocês não podem nos pagar?
"Não, nós queremos mesmo é pegar a terra, nós retalhamos a terra e não pagamos
de jeito nenhum!"
"Dê-nos um avião, nós não vamos acabar rápido! Governo, venha rápido nos pagar!", eu fico bravo.
As últimas considerações do depoimento não devem eclipsar um
traço notável dos Marubo: a admiração pelos estrangeiros, habitantes das
cidades ou visitantes nas aldeias. Admiração, cativação: conhecimentos vêm
sempre de fora, seja dos espíritos subaquáticos (que, nos tempos míticos,
ensinaram por exemplo a arquitetura das malocas e a caça com arco e flecha),
seja dos não-índios. A despeito da memória viva dos massacres e correrias que
aterrorizaram essas regiões da Amazônia ocidental, não se pretende nos dias de
hoje travar uma guerra com os brancos, mas, pelo contrário, abrir espaço para
interações possíveis, a partir de premissas distintas, contudo. A possibilidade
de conciliar a vida nas cidades com a vida nas aldeias depende, porém e
simultaneamente, no plano interno, do desenrolar das atuais relações entre
gêneros e gerações e, no plano externo, de mudanças nas instituições e
pressupostos dos brancos. Muito embora vivam na segunda maior terra indígena do
Brasil, a ausência de serviços essenciais e os decorrentes desastres sanitários
têm minado o estabelecimento de vínculos harmoniosos entre os Marubo e os
brancos, comprometendo a vida nas aldeias[38].
Alguns velhos cogitam abandonar a beira dos rios (marcada pelo acesso às
benfeitorias e aos produtos das cidades) e se estabelecer nas remotas
cabeceiras dos igarapés, a fim de escapar das doenças que fogem ao controle do
xamanismo. Como se pretendessem uma espécie de devir-antepassado com essa vida
nas cabeceiras, por oposição ao devir-estrangeiro característico do estado
atual de relações. Os Marubo, dizem, tornaram-se há tempos eseyavo, "sábios" ou "respeitosos", por
oposição aos seus antepassados e às populações vizinhas, consideradas como
"bravas" e propensas aos conflitos. Tal ethos
intelectual e diplomático acaba por dificultar uma reação das aldeias
ao caos que impera no município de Atalaia do Norte. Desolação, messianismo Muito provavelmente, o fluxo para as cidades está relacionado à
inclinação comum da juventude para períodos de experiência em outras terras,
tal como argumenta Ruedas[39],
ecoando a propensão dos pano e outros tantos ameríndios para a alteridade[40].
Os xamãs, no entanto, andam preocupados com o atual estado das coisas. Atalaia
do Norte é vista como uma cidade essencialmente problemática, fonte de
conflitos e desentendimentos de longa data com os brancos. Ainda assim, os
Marubo ali se estabelecem cada vez mais. Por quais razões? Os perigos de
Atalaia têm a ver com a proliferação de espíritos agressivos/assassinos
originários de pessoas matadoras e dos espíritos da cachaça, que encostam nas
pessoas e as tornam insensatas. Os espíritos agressivos e insensatos
interrompem o parentesco, jogam pessoas umas contra as outras, e a cidade
parece ser local privilegiado para isso. Nas aldeias, o assédio constante dos
espectros dos mortos pode ser monitorado e manipulado pelas atividades dos
xamãs, que, com seus cantos, os mantêm afastados das pessoas. A pessoa comum
ignora estar sendo prestidigitada por um espectro e, nas cidades, assim
permanecerá sem que ele possa ser afastado. De acordo com um xamã, uma pessoa se torna moradora de rua,
alcoólatra ou doente mental, justamente por causa do assédio dos espectros dos
mortos que perambulam pelas ruas sem rumo: tomando de assalto a pessoa, eles
alteram-na, substituindo ou eclipsando o duplo que antes tomava conta de seu
corpo. Nas aldeias, os mortos são conduzidos pelos xamãs através do
Caminho-Morte (Vei Vai) ou então para
longe das imediações das malocas. Os brancos insensatos das cidades, no
entanto, não sabem o que fazer com seus defuntos. Não sabiam, aliás, o que
fazer em vida: se foram agressivos, assim permanecerão em seus destinos
póstumos. Incapazes de atravessar o longo Caminho-Morte, acabam por ficar
presos em suas margens ou então recuam para esta terra, onde permanecem
atrapalhando os viventes. Os velhos marubo
dizem que, nas cidades adjacentes à Terra Indígena, vivem "os
filhos/descendentes de Shoma Wetsa", isto é, os brancos violentos que surgiram
a partir dos duplos dos netos outrora devorados pela mulher de ferro. Tais
brancos são freqüentemente contrastados aos brancos "bons", que vêm de terras
distantes tais como São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro. Os xamãs desprezam
as populações de tais cidades, formadas por pessoas "sem ensinamento" (ese yama), cujo comportamento é marcadamente
distinto daqueles outros brancos "donos de palavra" (vana ivorasĩ) que vêm de terras mais
distantes. Mesmo sabendo que estes estrangeiros são descendentes daqueles que
roubaram suas terras em outros tempos, apreciam sua capacidade de conversa e de
aprendizado da língua, oposta ao comportamento desrespeitoso dos brasileiros
regionais, com os quais julgam ser difícil estabelecer uma interlocução
inteligente. Numa ou noutra
cidade, os jovens criam vínculos com moças brasileiras, alguns dos quais mais
duradouros, e aprendem os seus modos do amor e do sexo, distintos dos das
mulheres das aldeias. Voltam para sua terra e tentam reproduzir a experiência
das cidades em suas casas de tapiri, construídas ao redor das grandes malocas:
as paredes internas são forradas de fotografias de revistas; alguns fazem mesas
com bancos e estantes, onde organizam fitas cassete e CDs em torno dos
aparelhos de som, objetos cobiçados. Isolados dos eventos que ocorrem nas
malocas, onde velhos e homens
maduros conversam ou realizam rituais, os jovens ficam entre si
escutando músicas regionais românticas, jogando cartas ou dominó, fumando
cigarros e consumindo cachaça ou outras bebidas, quando disponíveis. Os humores
passam das brincadeiras eufóricas à melancolia: neste extremo, os jovens ficam
tristes/nostálgicos (oniska), pois seus
pensamentos estão alhures. Para alguns, o afeto e os compromissos com as
mulheres das aldeias e a vivência com as moças brasileiras tornam-se experiências
incompatíveis. É verdade que os
cantos dos espíritos possuem uma semelhança de base com as músicas dos
estrangeiros: são todas melodias provenientes de fora, de outros povos
invisíveis, sendo por isso tristes ou nostálgicas, este tipo de afeto
característico dos trajetos e distâncias que marcam a paisagem amazônica[41].
Ainda assim, a audição voltada apenas às músicas dos estrangeiros afasta os
jovens da possibilidade de convívio com o parentesco sociocósmico, isto é, com
o campo de relações que integra os Marubo aos infindáveis espíritos. É a
integração a esse campo que possibilita uma alteração efetiva da pessoa
(composta por seu suporte corporal e por seus diversos duplos ou almas),
tornando-a apta para atravessar o Caminho-Morte ou a viver com os espíritos
após a morte. Alguns jovens acabam por ter seus duplos vivendo nas cidades,
enquanto seus corpos permanecem nas aldeias. O resultado é a melancolia, a
desolação, os conflitos de gênero e geração, bem como, no limite, a doença (agravada
pelos casos diversos de hepatite e malária). Em outros povos ameríndios, talvez
por razões similares, suicídios são desfechos freqüentes.[42]
A ausência de um ensino escolar diferenciado reforça o quadro
desalentador. Sem acesso a um conhecimento crítico sobre os saberes dos
brancos, os jovens permanecem também à margem do conhecimento de seus antigos.
Incapazes de interagir de modo efetivo com ambos os mundos, acabam em um limbo
desolador. As seguintes palavras de Davi Kopenawa Yanomami ressoam os dilemas
dos Marubo: Por isso, quando meu pensamento está triste, às vezes me
pergunto se, no futuro, ainda haverá xamãs. Talvez não. Nesse caso, nossos
filhos estarão tão confusos que deixarão de ver os espíritos e de escutar seus
cantos. Sem xamãs, viverão desprotegidos e perderão o juízo. Passarão seu tempo
a vagar entre os brancos. [...] Por isso, nos esforçamos sem trégua para
convencer nossos filhos e genros a inalar yãkoana e fazer dançar os espíritos
como faziam os nossos antigos. Assim as palavras dos xapiripë
[espíritos] jamais se perderão.
É verdade, como dizíamos, que o xamanismo marubo pode ser
compreendido como um sistema babélico de tradução; é verdade que sua mitologia
é uma grande narrativa do "contato" imemorial e dos trajetos por
terras distantes e multidões de populações estrangeiras. Parece ser por conta
disso que foi possível, ao longo das décadas, calibrar o trânsito para o mundo
dos brancos de uma maneira que garantisse a socialidade e a vida ritual das
malocas. Por que então a experiência contemporânea com as cidades tem se mostrado
tão ameaçadora? Não há uma resposta única para tal questão. Um xamã dizia que os desajustes nos casamentos, iniciados a
partir dos anos 1970, são uma causa provável para a insensatez e as doenças que
atualmente assolam as aldeias. Ao estabelecerem relações sexuais escondidas e
antes do tempo certo, e com outras moças que não as suas primas cruzadas, os
viventes "estragam seu sangue" (awẽ imi ichnai)
e repelem os espíritos yovevo. Para o
jovem xamã Robson Venãpa, o comportamento é sintomático destes tempos, que
estão para acabar. Kana Voã, um dos demiurgos, retornará de sua morada no
poente e a terra inteira arderá em chamas. A notícia, escutada dos espíritos, é
novidade entre os Marubo, muito embora ecoe os messianismos comuns a diversas
outras populações ameríndias. Atesta, de toda forma, que a relação com o mundo
dos brancos urbanos tem sido desarmônica e ameaçadora. As cidades, mesmo que
pensadas pelo xamanismo, são ainda um permanente desafio, um espaço a ser
re-habitado.
Epílogo O panorama acima apresentado não quer dizer que o fluxo para as
cidades seja a causa da vida conturbada nas aldeias, derivada, isso sim, das
omissões do Estado e da sociedade nacional. Utilizar tal quadro para sustentar
algum argumento contrário à manutenção de grandes reservas indígenas, sob o
pretexto do esvaziamento populacional e outros tantos, também não se justifica.
O problema não está no estabelecimento de frações das populações indígenas nas
cidades, mas na falta de acompanhamento e mediação de uma situação imposta aos
povos da floresta pelo processo histórico. Os trânsitos entre aldeia e cidade,
como vimos, não podem ser pensados pelo par natureza/cultura, a espinha dorsal
das "equivocidades tradutivas"[44]
estabelecidas entre a cultura nacional e as ontologias ameríndias. Reservas
indígenas não são jaulas de jardim zoológico, vitrines do paleolítico, grotões
onde "índios genéricos" devem ficar para que não percam a sua "autenticidade"
e, portanto, a justificativa para a aquisição de seus direitos legais.
De quem são afinal os critérios para delimitar os
agrupamentos indígenas, para dizer quais são os seus lugares originais de
ocupação? Ou ainda mais, como tem insistido de modo ignorante a opinião
pública, para dizer que reservas indígenas trazem a ameaça do separatismo, como
se os povos amazônicos partilhassem do mesmo caldo romântico-nacionalista que
produziu a desgraça dos Bálcãs? Os processos políticos amazônicos, na maioria
referentes a sociedades acéfalas, são intimamente ligados ao xamanismo e sua
potência transformativa - parecem situar-se nos antípodas, discute-se bastante,
das institucionalizações centradas no Estado e em alguma espécie de filiação à
identidade nacional[45].
Outras categorias de pensamento, outras categorias de poder. Não se tratam aqui
de organizações verticalizantes, muito menos de sociedades baseadas nas
abstrações da mercadoria (mesmo quando se utilizam da hierarquia ou do
dinheiro, o fazem a partir de seus próprios termos e desafios)[46].
Na tentativa de rastrear os sentidos ameríndios de comunidade, Viveiros de
Castro lembrou bem que a tarefa da antropologia é a de "elucidação das
condições de autodeterminação ontológica do outro. E ponto"[47].
Tais condições permitem ao antropólogo especular que comunidade indígena é toda
comunidade fundada em relações de parentesco ou vizinhança entre seus membros.
O "ou" aqui é evidentemente inclusivo: "seja parentesco, seja vizinhança". Este
é um ponto importante, porque ele impede uma definição genética ou genealógica
de comunidade. A idéia de vizinhança serve para sublinhar que "comunidade" não
é uma realidade genética; por outro lado, colocar "relações de parentesco" na
definição permite que se contemplem possíveis dimensões translocais dessa
"comunidade". Em outras palavras, a comunidade que tenho em mente é ou pode ser
uma realidade temporal tanto quanto espacial. Em suma, "parentesco" e
"território", para falarmos como Morgan, são tomados aqui como princípios
alternativos ou simultâneos de constituição de uma comunidade. Convém sublinhar
o caráter não-geométrico desse território: a inscrição espacial da comunidade
não precisa ser, por exemplo, concentrada ou contínua, podendo ao contrário ser
dispersa e descontínua.
Tal ponto, vale
frisar, não constitui um argumento para a defesa de demarcações descontínuas de
áreas indígenas, mesmo no caso limite de populações historicamente mais
próximas de grandes centros urbanos e áreas de intensa exploração econômica:
"a antiguidade da expropriação não a faz deixar de sê-lo. O único prazo de
validade é a memória." (idem 48), diz
Viveiros de Castro na seqüência do texto acima citado. Comunidades
indígenas não se situam, portanto, ou na
floresta ou em lugar nenhum, mas nas
florestas e nas cidades e nos estratos celestes, nas moradas dos mortos
e em quantas posições a cartografia virtual dos pensamentos xamanísticos quiser
projetar. O sentido ameríndio de coletivo, também lastreado na memória do
espaço (mas não de uma identidade nacional...), baseia-se justamente na idéia
de que os vínculos podem ser produzidos,
e não dados, tal como no caso de nossos
cortes ontológicos originários da distinção entre natureza e cultura.
O discurso contundente de Lauro Brasil não é uma
demonstração de separatismo ou intolerância, mas uma reflexão sobre a
intolerância e avidez alheias. O pensamento xamanístico não opera pela lógica
da exclusão discriminatória (ou se é primitivo, ou
se é civilizado), mas por níveis de inclusão e dinâmicas de alteração,
para os quais o outro é o ponto
essencial, e não uma discrepância a ser uniformizada. Resta saber como a vida
urbana e os trânsitos para as cidades poderão dialogar com a reinvenção
tradutiva e a experiência da diversidade desde sempre familiares aos sistemas
xamanísticos, capazes de oferecer alternativas plurais em meio à imposição do
consenso. -------------
Pedro de Niemeyer
Cesarino é graduado em filosofia
pela Universidade de São Paulo, mestre e doutor em antropologia social pelo
Museu Nacional (UFRJ). É atualmente bolsista de pós-doutorado da Fapesp no
Departamento de Letras da Universidade de São Paulo. É também co-editor da
revista literária Azougue.
Ver Erikson,
Philippe. "Uma singular pluralidade: a etno-história Pano". In: Carneiro da Cunha, M
(org). História dos índios no Brasil, op. cit., pp. 239-253;
Saez, Oscar Calavia. "O Inca Pano: mito, história e modelos etnológicos".
Mana, v. 6, n. 2, 2000, idem, O nome e o tempo dos
yaminawa.
São Paulo: Editora da Unesp/NuTI/ISA, 2006; Cesarino, Pedro e Colpron, Anne-Marie. "O Sol e o Machado: a
figura do Inca pano através dos casos marubo e shipibo-conibo", 2008
(mimeo).
Ver Da Matta, Roberto. Ensaios de antropologia estrutural. Petrópolis:
Vozes, 1977. Ver Viveiros de Castro, Eduardo.
Araweté, os deuses canibais. Rio de Janeiro: Zahar/Anpocs,
1986.
Ver Viveiros de Castro, E. A
inconstância da alma selvagem. São Paulo: CosacNaify,
2002. A noção é de Viveiros de Castro (A inconstância da alma
selvagem, op. cit.) e Tânia Stolze Lima (Um peixe olhou para mim [o povo yudjá e a
perspectiva]. São Paulo: Editora Unesp/ NuTI,
2005).
Para o caso kaxinawá, ver Deshayes,
Patrick e Keifenheim, Barbara. Penser l'Autre chez les Huni Kuin
del'Amazonie (Paris:
L'Harmattan, 1994); e para os matis e uma análise comparativa, ver Erikson,
Philippe. La griffe
des aïeux (Paris: Peeters, 1996).
Escapa aos propósitos do presente artigo
examinar com mais detalhes as estratégias econômicas e políticas envolvidas no
trânsito entre aldeia e cidade. O leitor interessado em maiores detalhes
deve se reportar ao trabalho de Lasmar & Eloy (2006, "Urbanização e agricultura indígena
no alto Rio Negro". In
B.Ricardo
& F.Ricardo (orgs). Povos Indígenas no Brasil.
São
Paulo, Instituto Socioambiental, pp 237-242), que observaram como o estabelecimento
de populações indígenas na região de São Gabriel da Cachoeira (AM) não implica
em uma uniformização das práticas econômicas mas, bem pelo contrário, em uma
reinvenção das situações urbanas a partir das técnicas de subsistência da
floresta. Em seu estudo sobre a cidade de Iauaretê (AM), Andrello (Op. cit.) mostra com detalhes como a ontologia
xamanística e as estratégias de socialidade dos povos da região (marcadas pelas
relações de afinidade e aliança distribuídas há tempos pela rede hidrográfica)
determinam, a partir de critérios próprios, a ocupação do espaço urbano e as
estratégias para a resolução de dilemas
sócio-econômicos.
Viveiros de Castro, "Perspectival
anthropology and the method of controlled equivocation".
Tipiti, v. 2, n.
2, 2004, pp. 3-23.
Não posso aqui aprofundar as conexões da
antropologia política com a etnologia e o tema das cidades, muito embora sejam
certamente férteis. O leitor interessado deve se reportar aos trabalhos
de Pierre Clastres (La société contre l'état.
Paris: Les Éditions de Minuit, 1974 [ed. bras. A sociedade contra o Estado. São Paulo: CosacNaify, 2007]),
Santos-Granero (Santos Granero, Fernando. "Power, ideology and the
ritual of production in Lowland South America". Man
(N.S.), v.
21, n. 4, 1986, pp. 657-679.) [a
referência está correta - N.S. abrevia new series], Descola ("La chefferie amérindienne
dans l'anthropologie politique". Revue
Française de Science Politique, v. 38, n. 5, 1988, pp. 818-827),
Sztutman (op. cit.) e Viveiros de Castro (A inconstância da alma
selvagem, op. cit. e "Filiação intensiva e aliança demoníaca".
Novos Estudos,
no 77, 2007, pp.
91-126), entre outros.
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